segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010


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Manifesto Antropófago


Só a Antropofagia nos une. Socialmente.

Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de

todos os individualismos, de todos os coletivismos.

De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos

Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem.

Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos

suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o

enigma mulher e com outros sustos da psicologia

impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o

impermeável entre o mundo interior e o mundo

exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema

americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e

amados ferozmente, com toda a hipocrisia da

saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos

touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem

coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que

era urbano, suburbano, fronteiriço e continental.

Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil. Uma

consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência

enlatada. A existência palpável da vida. E a

mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a

Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas

eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa

não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos

do homem. A idade de ouro anunciada pela América.

A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori

Villegaignon print terre.Montaigne. O homem

natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao

Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução

Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling.

Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de

um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na

Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica

entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro

empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto

dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita

lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar

brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos

trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o

corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina

antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de

meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A

ciência codificação da Magia. Antropofagia. A

transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas.

Cadaverizadas. O stop do pensamento que é

dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das

injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o

esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte

do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu.

Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o

solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval.

O índio vestido de senador do Império. Fingindo de

Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de

bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua

surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju *

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a

distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos

bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a

morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele

me respondeu que era a garantia do exercício da

possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias.

Comi-o.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas

que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no

Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado.

Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e

aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os

transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas

caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários,

definida pela sagacidade de um antropófago, o

Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram

fugitivos de uma civilização que estamos comendo,

porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado,

Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos

vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos

adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da

distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra

as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o

tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do

Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha:

Ignorância real das coisas + fala de imaginação +

sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se

chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava.

Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda.

Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o

Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria,

afilhado de Catarina de Médicis e genro de D.

Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A

experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta,

reagem, queimam gente nas praças públicas.

Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos

roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos

instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D.

João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a

Criatura – ilustrada pela contradição permanente do

homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o

modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do

inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A

humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as

puras elites conseguiram realizar a antropofagia

carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e

evita todos os males identificados por Freud, males

catequistas. O que se dá não é uma sublimação do

instinto sexual. É a escala termométrica do instinto

antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a

amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência.

Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento.

A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de

catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato.

Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é

contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do

céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho

fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada.

Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa

coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o

faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o

espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria

da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora,

cadastrada por Freud – a realidade sem complexos,

sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias

do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE

Em Piratininga

Ano 374 da Deglutição do

Bispo Sardinha**

(Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de

1928.)

* "Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano

lembranças de mim", in O Selvagem, de Couto

Magalhães

** Oswald de Andrade alude ironicamente a um

episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio

em que viajava um bispo português, seguido da

morte do mesmo bispo, devorado por índios

antropófagos.